quarta-feira, 23 de setembro de 2026

 

🌍 PALAVRAS PARA COMPREENDER O MUNDO

Edição #01 · Setembro de 2026

🌍 Abertura

Existe um fio invisível que liga um tabuleiro de xadrez a uma sala de aula, uma tela de cinema a um divã de analista, e todos eles a um evento histórico que mudou o curso de uma nação. Esse fio é a tensão entre controle e liberdade — a pergunta eterna sobre quem move as peças e quem é movido por elas.

Nesta primeira edição, vamos puxar esse fio.

📜 Raízes — A Queda que Ensinou o Mundo a Cair de Novo

Em 14 de julho de 1789, a Bastilha caiu. Não era uma prisão especialmente cruel — tinha apenas sete presos naquele dia. Mas era um símbolo. E símbolos, quando caem, fazem mais barulho que fortalezas.

O que a Revolução Francesa nos ensina não é sobre guilhotinas. É sobre como a desigualdade, quando narrada como injustiça, se torna combustível. A história não se repete, mas rima — e hoje, quando vemos movimentos sociais explodirem em diferentes partes do mundo, a rima é quase idêntica: pessoas que sentem que as regras do jogo foram feitas sem elas.

A pergunta que fica: quais "Bastilhas" simbólicas ainda estão de pé na sua realidade?

🎓 Sala de Aula — Ensinar é Atrapalhar com Elegância

O educador argentino Alejandro Dolina disse uma vez que "ensinar é, antes de tudo, criar uma inquietação". Pense nisso: a melhor aula que você teve na vida provavelmente não foi a que explicou tudo perfeitamente. Foi a que deixou uma pergunta coçando na sua cabeça dias depois.

A educação que transforma não entrega certezas — ela desorganiza certezas antigas para que novas possam nascer. Isso é profundamente psicanalítico, aliás: o crescimento só acontece quando algo em nós é perturbado.

Para refletir: na última vez que você ensinou algo (a um aluno, um filho, um colega), você deu uma resposta ou plantou uma pergunta?

🎬 Tela & Sentido — O Xadrez de Bergman

Em O Sétimo Selo (1957), Ingmar Bergman coloca um cavaleiro medieval jogando xadrez com a Morte. Não é sobre ganhar ou perder. É sobre ganhar tempo — tempo para fazer algo que dê sentido à existência antes que as peças sejam recolhidas.

O filme é uma obra-prima sobre a angústia humana diante do inevitável. Mas há uma cena menos comentada: o escudeiro Jöns, que não joga xadrez com a Morte, mas vive com uma honestidade brutal e simples. Talvez Bergman esteja dizendo que há duas formas de lidar com o absurdo da vida: jogando contra ele ou vivendo apesar dele.

Assista com essa pergunta: com quem você se identifica mais — o cavaleiro que desafia ou o escudeiro que aceita?

♟️ 64 Casas — O Peão que Sonha ser Rainha

No xadrez, o peão é a peça mais subestimada. Move-se devagar, uma casa por vez. Não pode recuar. Mas é a única peça que pode se transformar em qualquer outra ao chegar ao outro lado do tabuleiro.

Isso não é apenas uma regra do jogo — é uma metáfora poderosa. O peão nos ensina que a limitação não é o oposto da transformação; é o caminho para ela. Cada passo pequeno, irreversível, em direção ao desconhecido, carrega dentro de si a possibilidade de se tornar algo que antes parecia impossível.

Philidor, o grande mestre do século XVIII, dizia: "Os peões são a alma do xadrez." Talvez porque sejam a alma de qualquer jornada humana.

No seu tabuleiro atual, qual é o pequeno passo que você está evitando dar?

🛋️ Divã Aberto — O Inconsciente é a Bastilha Interior

Freud descobriu algo tão perturbador quanto a Revolução Francesa, mas dentro de nós: não somos senhores da nossa própria casa mental. O inconsciente governa desejos, medos e repetições que a consciência não quer ver.

Se a Bastilha era o símbolo de um poder arbitrário e invisível que oprimia o povo, o inconsciente é a Bastilha interior — estruturas que nos controlam sem que saibamos. A psicanálise, nesse sentido, é uma revolução: tomar a Bastilha de dentro, iluminar o que estava trancado, não para destruir, mas para compreender.

Winnicott acrescentou algo belo a isso: o que está trancado muitas vezes não é um monstro, mas uma criança que precisou se esconder para sobreviver. A análise é o espaço seguro para que essa parte volte a brincar.

Pergunta para o divã: o que em você se repete e você não entende por quê?

✍️ Entrelinhas

"A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só dinheiro. A gente quer dinheiro e felicidade."

— Arnaldo Antunes / Titãs, Comida (1987)

Uma letra que é, em quatro versos, um tratado de psicanálise, um manifesto educacional e uma aula de história do Brasil.

📚 Indicações da Quinzena

📖 Livro: O Mal-Estar na Civilização — Sigmund Freud

Curto, denso, e explica por que a sociedade nos adoece e nos salva ao mesmo tempo.

🎬 Filme: O Sétimo Selo — Ingmar Bergman (1957)

Xadrez, morte, fé e dúvida em 96 minutos perfeitos.

📄 Artigo: "Pedagogia do Oprimido" (cap. 2) — Paulo Freire

A distinção entre educação bancária e educação libertadora, essencial e atual.

Até a próxima quinzena! 🌍

Se esta edição fez você pensar, compartilhe com alguém que também gosta de boas perguntas.

Palavras para Compreender o Mundo

Uma coluna quinzenal sobre História, Educação, Cinema, Xadrez e Psicanálise.


quarta-feira, 30 de junho de 2021

FESTA JUNINA!

Ontem fui ao arraial de Lajeado, fazia um tempo que não ia ver as quadrilhas dançarem nas festas juninas. O povo do norte e nordeste brasileiro gosta muito dessa festa. Quando eu era pequeno inclusive gostava de dançar no colégio, passávamos vários meses ensaiando só para apresentar para comunidade que participava do arraial na escola. Era muito divertido, além da quadrilha no colégio, também tinha a do bairro.

 

As quadrilhas tem origem na tradição camponesa de comemorar o período da colheita, por isso umas das coisas marcantes das festas juninas são a culinária, a abundancia de comida. Muita comida e bebida. Pamonha, milho assado, pé de moleque, quentão entre outras gostosuras.

 

Mas a parte melhor sem duvida eram as quadrilhas. O caminho da roça, o casamento, os figurinos simples, o chapéu de palha, as camisas quadriculadas, os vestidos de renda. O som da sanfona, do zabumba, do pandeiro e do triangulo. Tudo era muito simples, qualquer um podia participar.

 

As festas juninas era um jeito de lembrar a nossa origem camponesa, resgatar nossos costumes, celebrar nossa cultura, matar a saudade do campo. Da nossa terra de onde fomos obrigados sair para dar lugar à monocultura de soja, cana de açúcar, eucalipto, pasto pra gado ou para construção de usinas hidrelétricas.

 






Ontem fiquei olhando a festa junina aqui no Lajeado, há algum tempo não ia a uma quadrilha. Fiquei triste pelo que vi, as coisas mudaram tanto. A festa junina deixou de ser um espaço de diversão para se tornar um espaço de competição. As músicas aceleradas que nada lembra o forrozinho pé de serra. Agora se tornaram uma espécie de forró enredo.

 

O figurino todo cheio de brilho parecendo fantasias de carnaval, muitos passos foram modificados, alguns desapareceram a exemplo do bêbado e do veado, dizem que agora é quadrilha politicamente correta. Ai de nós, não é para tanto. As quadrilhas pulam alucinadamente, são tudo cronometrado, coreografado, quadrilhas enlatadas, industrializadas.

 

 

Senti saudade do meu tempo de criança, das quadrilhas no colégio, do grupo do império na baixa preta, bairro onde morava. Da diversão que era. Da animação. Quando se dançava quadrilha não para se disputar troféu ou ganhar dinheiro, mas para festejar e relembrar a nossa origem camponesa. As quadrilhas de hoje infelizmente estão mais para carnaval. Que pena, que pena. 


quarta-feira, 23 de junho de 2021

A SOMBRA - EDGAR ALAN POE!

 

  EDGAR ALAN POE - A SOMBRA.

Vós, que me ledes, estais ainda entre os vivos; mas eu, que escrevo, terei desde há muito partido para o mundo das sombras. Na verdade, estranhas coisas virão, inúmeras coisas secretas serão reveladas, e muitos séculos decorrerão antes que estas notas sejam lidas pelos homens. E quando eles as tiverem lido, uns não acreditarão, outros porão as suas dúvidas, e muito poucos de entre eles encontrarão matéria para fecundas meditações nos caracteres que eu gravo com um estilete de ferro nestas tabuinhas.

O ano havia sido um ano de terror, cheio de sensações mais intensas que o terror, sensações para as quais não há nome na Terra. Muitos prodígios, muitos sinais haviam ocorrido, e de todos os lados, em terra e no mar, se tinham amplamente estendido as asas negras da Peste. Aqueles, porém, que eram sábios, conhecedores dos desígnios das estrelas, não ignoravam que os céus prenunciavam desgraça; e, para mim (o grego Oino), como para outros, era evidente que atingíamos o fim desse septingentésimo nonagésimo quarto ano, em que, à entrada do Carneiro, o planeta Júpiter fazia a sua conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito particular dos céus, se não me engano muito, manifestava o seu poder não só sobre o globo físico da Terra, mas também sobre as almas, os pensamentos e as meditações da humanidade.
Uma noite, estávamos sete nos fundos de um nobre palácio, numa sombria cidade chamada Ptolemais, sentados em volta de algumas garrafas de vinho cor de púrpura de Quios. O compartimento não tinha outra entrada senão uma alta porta de bronze; e a porta havia sido moldada pelo artífice Corinos e, produto de hábil mão de obra, fechava por dentro. De igual modo, protegiam esse compartimento melancólico negras tapeçarias, que nos poupavam a visão da Lua, das estrelas lúgubres e das ruas despovoadas. Mas o sentimento e a lembrança do Flagelo não se tinham expulsado facilmente. Havia à nossa volta, junto de nós, coisas que não posso definir distintamente, coisas materiais e coisas espirituais — um peso na atmosfera, uma sensação de abafamento, uma angústia e, acima de tudo, esse terrível modo de existência que ataca as pessoas nervosas quando os sentidos estão cruelmente vivos e despertos e as faculdades do espírito entorpecidas e apáticas. Esmagava-nos um peso mortal. Estendia-se-nos pelos membros, pelo mobiliário da sala, pelos copos por onde bebíamos; e todas as coisas pareciam oprimidas e prostradas naquele abatimento — todas, exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que iluminavam a nossa orgia. Alongando-se em delgados fios de luz, elas assim se quedavam, ardendo pálidas e imóveis; e na mesa redonda de ébano em redor da qual nos sentávamos, e cujo brilho transformava em espelho, cada um dos convivas contemplava a palidez do próprio rosto e o brilho inquieto dos olhos tristes dos seus camaradas.
Não obstante, compeliamo-nos a rir, e estávamos alegres à nossa maneira — uma maneira histérica; e cantávamos as canções de Anacreonte, que não passam de loucura; e bebíamos à larga, muito embora a púrpura do vinho nos lembrasse a púrpura do sangue. É que no compartimento havia uma oitava personagem — o jovem Zoilo. Morto, estendido a todo o comprimento e amortalhado, era o gênio e o demônio do cenário. Ai! esse não tomava parte no nosso divertimento: apenas a sua fisionomia, convulsionada pelo mal, e os seus olhos, em que a Morte só semiextinguira o fogo da peste, pareciam tomar pela nossa alegria tanto interesse quanto os mortos são capazes de tomar pela alegria daqueles que têm de morrer. Mas embora eu, Oino, sentisse os olhos do defunto fixos em mim, a verdade é que me esforçava por não me aperceber do amargor da sua expressão, e, olhando obstinadamente para as profundezas do espelho de ébano, eu cantava em voz alta e sonora as canções do poeta de Teos. Gradualmente, porém, o meu canto cessou, e os ecos, rolando ao longe por entre as negras tapeçarias do aposento, foram enfraquecendo, indistintos, e desvaneceram-se.
Mas eis que do fundo dessas tapeçarias negras onde morria o eco da canção se ergueu uma sombra, escura, indefinida — uma sombra semelhante àquela que a Lua, quando está baixa no céu, pode desenhar com as formas de um corpo humano; mas não era a sombra nem de um homem, nem de um deus, nem de nenhum ser conhecido. E, tremendo por instantes no meio dos reposteiros, ela ficou, enfim, visível e firme, sobre a porta de bronze. Mas a sombra era vaga, sem forma, indefinida; não era a sombra nem de um homem, nem de um deus — nem de um deus da Grécia, nem de um deus da Caldeia, nem de nenhum deus egípcio. E a sombra jazia sobre a grande porta de bronze e sob a cornija em arco, sem se mexer, sem pronunciar uma palavra, fixando-se cada vez mais e acabando por ficar imóvel. E a porta em que a sombra assentava, se bem me recordo, tocava os pés do jovem Zoilo.
Nós, porém, os sete companheiros, tendo visto a sombra sair dos reposteiros, não ousávamos contemplá-la de frente; baixávamos os olhos e olhávamos sempre para as profundezas do espelho de ébano. Por fim, eu, Oino, aventurei-me a pronunciar algumas palavras em voz baixa, e perguntei à sombra a sua morada e o seu nome. E a sombra respondeu:
— Eu sou a Sombra, e a minha morada é ao lado das Catacumbas de Ptolemais, e muito perto dessas planuras: infernais que encerram o canal impuro de Caronte.

E então, todos nós, os sete, erguemo-nos horrorizados dos nossos assentos, e ali ficamos — trêmulos, arrepiados, cheios de assombro. O timbre de voz da Sombra não era o timbre da voz de um só indivíduo, mas de uma multidão de seres; e essa voz, variando as suas inflexões de sílaba para sílaba, enchia-nos confusamente os ouvidos, a imitar os timbres conhecidos e familiares de milhares de amigos desaparecidos!

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

MEU PÉ DE LARANJA LIMA

 O livro conta a história de Zezé um menino pobre  umdea família com o pai desempregado e poucos recursos e a mãe quase sempre ausente por buscar o sustento do lar.

Zezé sofre maus tratos por parte do pai e faz seus desabafos com um amigo imaginário, um pé de laranja lima, Depois encontra um grande amigo em Portuga, alguém que o acolhe e respeita.


1 - Faça um comentário sobre o que você achou de mais importante 

na história de Zezé.

2 - Podemos comparar o que acontecia com Zezé , obra retratada nos anos 20, portanto cem anos atrás, com o que está acontecendo hoje no Brasil... Fale sobre algumas dessas semelhanças;

Se quiser , pode fazer as respostas nos  próprios comentários do blog!

terça-feira, 18 de maio de 2021

DICA DE VESTIBULAR - MACUNAÍMA

 A dica de hoje é sobre a obra “Macunaíma”, do autor Mário de Andrade, sendo um dos primeiros romances modernistas brasileiros, no qual o autor representa o multiculturalismo brasileiro, em que se misturam os mais diversos traços de nossa formação cultural; há um caráter revolucionário relacionando os aspectos formais tanto quanto os temáticos, com a linguagem dotada de neologismos e da fala popular. Escrita sob a ótica cômica, o livro é atemporal e possui estrutura inovadora. É uma obra surrealista, onde se encontram aspectos ilógicos, fantasiosos e lendas. Adota como protagonista uma personagem fantasiosa e complexa.

Macunaíma nasceu em uma tribo localizada em meio à Amazônia, na qual viveu por toda sua infância. O rapaz tinha dois irmãos, Maanape e Jiguê, sendo que Macunaíma era o mais cheio de defeitos: mentiroso, traidor, preguiçoso e adorava falar palavrões.

Quando cresceu e se tornou jovem, acabou se apaixonando por uma índia chamada Ci, a mãe do Mato, seu único amor que lhe deu um filho, mas acabou morrendo prematuro. Desiludida, Ci decide morrer e, por meio de um cipó, ela sobe aos céus, sendo transformada em uma estrela, porém, antes de partir, deixou para Macunaíma um amuleto da sorte, uma pedra de muiraquitã.
O jovem acabou perdendo esse amuleto, mas descobre que ele foi levado por Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã, que morava em São Paulo. Macunaíma e seus irmãos resolveram ir até à cidade recuperar essa pedra, mas sabiam que teriam que enfrentar o gigante, tal comedor de gente.

Ele chega a São Paulo e vivencia diversas aventuras tudo para recuperar a tal pedra. O índio consegue finalmente achar e matar o gigante recuperando a sua “preciosidade”.

Macunaíma e seus irmãos retornam à Aldeia, porém ao chegar, acabam não encontrando sua tribo. Os irmãos morrem no meio do caminho devido à vingança do herói, no qual enfrenta dias solitários até que um papagaio surge e escuta toda a sua história.

O índio resolve nadar em um lago para se refrescar e termina sendo seduzido pela mãe-d’água Iara, que o despedaça. Saindo das águas, ele consegue se colar, porém acaba não encontrando uma perna. Sem ter o que fazer na terra, sobe ao céu e vira a constelação da Ursa-Maior.

Boa leitura!

LINK PARA DOWNLOAD

https://lelivros.love/book/download-livro-macunaima-mario-de-andrade-em-epub-mobi-e-pdf/

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