sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

QUEM PENSA EM NÓS?









Fomos acostumados desde tenra idade, a acreditar que somos uma identidade, um Eu. Ainda crianças, dependentes inteiramente de nossos pais, seres indefinidos, seríamos assim como extensões de nosso ambiente. 
O tempo vai passando e nos ensinam que temos um nome, pais, uma casa, um corpo , falamos e pensamos. Desse modo, cria-se pouco a pouco a noção de um Self que está em alguma parte de nosso cérebro.
Importante, no entanto lembrar, que já fomos muitos eus, afinal não existe mais aquela criança inocente que vivia para brincar, nem mesmo aquele adolescente cheio de sonhos e conflitos. Hoje nos tornamos adultos com responsabilidades, que entendem ser necessário constituir relações familiares, com amigos , enfim com a sociedade.
Diante disso, poderia perguntar: Se existe um Eu, onde ele estaria?
As religiões defendem que o ser humano é imortal, posto que tem uma alma, e essa alma seria o conceito que em psicologia conhecemos como Eu, e é exatamente essa alma e esse eu que passaria para o Além, ou seja qual for o lugar que habitaríamos
Posta essa observação, e diante das percepções que temos todos os dias, imaginemos que nossa alma , ou Eu, ou espírito, habite o nosso cérebro, visto que conseguimos pensar, refletir de maneira subjetiva, como se houvessem vozes dentro da nossa cabeça
Uma reflexão interessante foi proposta pelo neurologista Sam Harris, autor de um livro chamado Despertar.
Nele, o autor argumenta que existem situações em que é necessário fazer uma operação, principalmente em crianças que sofrem de epilepsia,onde os hemisférios cerebrais são desconectados. Acredito que todos sabem que nossos hemisférios cerebrais, o esquerdo e direito, tem funções específicas, trabalham em paralelo, mas também individualmente. O lado direito comanda o lado esquerdo do corpo e está ligado as emoções, a arte, a espiritualidade, enfim é o que nos torna humanos. Já o lado esquerdo, que comanda o lado direito do corpo, é analítico, racional, ligado a códigos, Matemática e principalmente responsável pela linguagem humana.
Ao separarem os hemisférios os médicos perceberam que o cérebro consegue trabalhar normalmente, pois há uma compensação em cada hemisfério em relação ao outro. No entanto o mais curioso nessa divisão cerebral, é que aparentemente cada hemisfério pensa de forma independente  Em outras palavras, existe autonomia em cada um deles. Isso levanta questões filosóficas, morais e religiosas muito interessantes e complica a resposta a pergunta que fiz acima : Onde está nossa alma dentro de nós?
Se respondermos que ela está no cérebro, então eu diria: Mas em qual hemisfério? Supostamente alguns  falariam que seria no esquerdo pois ele conseguiria verbalizar através da linguagem , no entanto  a pesquisa com o cérebro dividido mostra que o hemisfério direito, mudo, consegue através dos gestos comunicar seus desejos e pensamentos. A questão religiosa ficaria mais instigadora. Pelo víes cristão a alma que aceita Jesus será conduzida ao Paraíso, enquanto aquelas rebeldes irão para o Inferno. Mas diante, da pesquisa dos neurologistas, poderia acontecer, de que, o hemisfério esquerdo aceitasse a Cristo, mas o lado direito não concordasse. Como julgar moralmente que parte de nós decidiria? Qual delas iria para o céu ou para o inferno? É claro, que isso torna inviável  essas noções e aponta outros caminhos de pesquisa e reflexões! 

domingo, 4 de dezembro de 2016

NOVAS FORMAS DE MUDANÇA









Não nascemos prontos, mas no processo da vida, através dos acontecimentos e das escolhas que fazemos, vamos configurando nossa existência.
Igualmente não nascemos cristãos, nem muçulmanos, nem budistas... todas essas ideias são, aos poucos incutidas em nós por pais, amigos e professores.
Me lembro que até uns dez anos não torcia para nenhum time de futebol, até que um amigo , que  me identificava, veio brincar certo dia com uma camisa do Palmeiras. Foi o suficiente para a partir daquele momento me tornar um palmeirense. Hoje, ainda torço pelo time, acompanho o campeonato e muitas vezes defendo com paixão suas cores. Mas, as vezes fico imaginando, que  é uma bobagem, tomar para si uma ideia que não foi necessariamente uma escolha consciente, mas uma associação entre afinidades e emoções em relação a uma amizade.
Pertinente a religião, a família era católica, com um pé no Espiritismo. Diziam até que meu pai, que morrera prematuramente, deveria ter desenvolvido a mediunidade, e que como não o fez, foi precocemente recolhido para o Além.
Apesar de católico por tradição, dificilmente ia a Igreja, aliás nunca vi minha familia participando da Igreja.
Mas aconteceu algo muito forte, uma tragédia que modificou minha maneira de pensar a fé e a religião.
Em 1982, morava em Votorantim, interior de São Paulo, próximo a Sorocaba. Era um adolescente cheio de conflitos, de temores e incertezas... Éramos pobres, vivíamos de aluguel e ganhávamos pouco. O clima na família era desestruturado após a morte de meu pai, e pouco a pouco alguns irmãos foram casando e decididos a cuidar de suas vidas e ficamos no final 3 irmãos minha mãe e eu, de uma família de oito pessoas.
Assim, dentro de toda essa situação em fevereiro daquele ano, ocorreu uma tromba d'água na cidade e de repente, me vi sem casa para morar, sem roupas sem minha coleção de gibis que eu adorava, e até mesmo sem documentos. Em menos de meia hora as águas tinham levado tudo. Além das coisas materiais, foram rio abaixo sonhos, minhas esperanças e ideais Confesso que fiquei em depressão. Tinha então 17 anos.
Foi diante desse terrível acontecimento que me tornei protestante e assim comecei um novo período em minha vida, marcado por muita alegria no começo, onde tudo era novo, onde recebi atenção, carinho, acolhimento, mas que pouco a pouco foi se diluindo e tudo se transformou novamente em uma grande confusão e sofrimento.. 
Com o passar dos anos fui percebendo que minha "conversão" não passara de uma experiência emocional, embora em alguns momentos reconheço houve "eventos" que poderia acreditar que foram espirituais.
Mas em essência percebia, que pouco havia mudado de verdade. Isso porque mesmo sem ir a Igreja protestante, sempre fui um jovem sem vícios, introvertido, com pouca experiência de mundo, ou seja o Cristianismo pouco mudou em mim, porque em questão de vícios, vida permissiva, e afins eu simplesmente nunca pratiquei.
Aos 20 anos despertou uma curiosidade pela leitura, pelo conhecimento, e isso em todos os níveis. Lia psicologia, esoterismo, filosofia, e toda sorte de literatura. Começou a crise religiosa que se intensificou nos anos seguintes.
Percebo então que mudei superficialmente, e essa mudança teve um motivo externo: No meu caso, a enchente que me levou a uma depressão. 
Krisnamurth, ao qual eu me identifico muito, ensina que o ser humano normalmente muda por conta das coisas ruins ou extremas que lhe acontecem em vida. O fim de um relacionamento, a perda de um ente querido, a falência financeira, entre tantos dissabores. Mas todas essas mudanças ocorrem por conta de acontecimentos exteriores, ou seja, de fora para dentro.
Em suas mensagens ele deixa bem claro que essas transformações são superficiais, que a verdadeira mutação deve ocorrer de dentro para fora.
E como ocorrem essas mutações? Na ideia dele, quando passamos a perceber tudo ao nosso redor, coisas simples como a maneira como agimos, falamos, nos comportamos, a forma como nossos pensamentos passam pela nossa mente, nossos sentimentos e emoções, a maneira como trato minha esposa, meus filhos, meu chefe, meus amigos... enfim todas essas nuances... quando eu começo a perceber tudo isso, todo esse imenso fluxo do que é viver, então eu resgato uma energia preciosa que estava sendo gasta em um viver condicionado. Essa imensa energia que todos nós temos, mas é dissipada pelo conflito, pela maneira condicionada que vivemos , quando ela se reorganiza e se torna acessível ao cérebro, então ocorre uma grande mutação, de dentro para fora, a verdadeira transformação.
Portanto, acredito que todas essas experiências que temos como a religião, os acontecimentos bons ou ruins que nos ocorrem, são importantes, mas insuficientes para uma mudança. Ela precisa vir de dentro, e assim influenciar todo o nosso entorno! 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A IGNORÃNCIA E O MAL!

O Cristianismo ensina que o mal é algo externo a nós, que não é em si um mal absoluto, enraizado radicalmente na existência, mas produto de um ato criador que se desfigurou e enveredou por outros caminhos.
Lúcifer foi uma experiência que não deu certo do ponto de vista da Criação... Mas afinal, nem o ser humano parece ter dado certo.
O Budismo, em meu modo de ver é mais coerente, porque ensina que a origem do mal não é externa , não existe um ser que engendre em nós o desejo de errar. O erro nasce de dentro , de nossa incapacidade em perceber nuances, em fazer julgamentos, em conhecer. O mal é a ignorância Pensando por esse prisma, o mal nem existe, não existem pessoas más, todos são bons, mas a ignorância nos torna maus. Mas a ignorância em si não é um mal metafísico, mas uma falha do processo de perceber, pensar e refletir. Portanto quando eu me empenho em compreender o mundo ao meu redor, buscando coerência, seguindo um modelo evolutivo, me capacito a vivenciar outros valores e insights. 
Portanto, acredito que precisamos de bons modelos, e quando falo bom, não estou me referindo especificamente a questões morais, mas a referências que me conduzam a uma evolução de pensamento. Quando um artista pinta um quadro, ele busca referências, dentro de sua Cultura, da Natureza ou em seu espírito para criar uma obra que produza esclarecimento nas pessoas. 
Assim, em meu modo de perceber o mundo entendo que precisamos elencar referências positivas constituídas em si de valores que construam uma civilização que reflita, que busque perceber a Vida de diversas maneiras, com uma qualidade em seus modelos.
O que temos percebido na atualidade é que se perderam referências, modelos evolutivos , que foram substituídos por subjetividades, por gostos duvidosos, por uma democracia ( não apenas no sentido político) que permite que tudo seja considerado verdadeiro, belo e bom!